1. O transporte pode ser complicado.

A primeira realidade que muitos viajantes vão encarar na Bolívia é o transporte público. Como na maior parte da América do Sul, o sistema é formado por uma extensa rede de linhas de ônibus. São as experiências nesses ônibus que podem variar.

O processo de pegar ônibus na Bolívia merece um post só para ele, mas por enquanto vou listar o básico: os motoristas são apressados, as chegadas e partidas acontecem em horários pouco convenientes e você nunca sabe qual será a temperatura dentro do ônibus. Para viagens curtas, no entanto, passei a maior parte do meu tempo em dois tipos: táxis e trufis.

Pegando táxis e trufis na Bolívia

Cheguei em La Paz apreensiva quanto a embarcar nos pequenos ônibus locais. Conhecidos como trufis, eles levam montes de gente através das ruas da cidade com cobradores gritando os destinos através das portas abertas (a informação também pode ser vista em placas coladas nas janelas dianteiras). Não é muito diferentes das ‘vans’ que circulam no meio dos ônibus em grandes cidades brasileiras.

O problema é que os motoristas fazem suas próprias rotas: se há muito trânsito, por exemplo, eles podem decidir seguir por outro caminho. Para turistas que mal sabem o nome da rua do hostel onde vão ficar, isso é um problema.

Por sorte, antes de conquistar meu medo e subir num trufi pela primeira vez eu já tinha caminhado por boa parte da cidade e podia entender em qual direção estávamos acelerando. Assim, perdia o senso de localização era só gritar ‘esquina, por favor!’ e descer na próxima quadra – regra que nunca teria aprendido sem presenciar outros passageiros.

Em relação aos táxis, a Bolívia é o único país onde estive em que eu invariavelmente precisava conhecer tanto o endereço quanto a melhor forma de chegar. Há motoristas que ficam assustados apenas de ver o turista chamar um táxi — a maioria nem pára. Táxis passaram direto por mim e outros aceleravam para longe no momento em que me ouviam dizer pela janela um endereço que não conheciam.

Fiquei num hostel incrível em Cochabamba, prejudicado apenas pelo fato de que absolutamente nenhum taxista sabia como chegar até ele. Minha vez favorita foi voltar a Las Lilas com um motorista que manteve uma expressão de pavor durante toda nossa curta viagem de dez minutos. Precisei explicar para ele cada curva antes de finalmente descer do carro.

Transporte boliviano: os lados positivos

Há benefícios na forma como os bolivianos circulam. Em primeiro lugar, é muito barato. Esse é o principal motivo pelo qual peguei táxis a maior parte do tempo — um hábito que não mantive em outros países sul-americanos.

Em segundo, a experiência é normalmente bastante amistosa. Em cada viagem de trufi, percebi que todos dizem “buen día” ou “buenas tardes” para os outros passageiros ao subir no carro. Adotei essa tática de cara.

Terceiro, e para mim o mais importante, é que ser um motorista de táxi na Bolívia é normalmente uma operação familiar. Peguei táxis com o filho, a filha ou a esposa do motorista no banco da frente — e uma vez, em Sucre, até conheci um bebê recém-nascido do qual o pai claramente não aguentava ficar longe. Apesar dos motoristas estranhos, a maioria está sempre disposta a conversar com você em espanhol sobre o que você está fazendo na Bolívia.

Infelizmente, essas conversas sempre precisam acabar com um momento difícil: a hora de pagar.

2. Lidar com dinheiro na Bolívia é estressante.

Como em muitos países, as pessoas na Bolívia tem problema em dar troco. Entendo — um turista paga com uma nota grande e de repente todas as moedas e notas menores desaparecem. Mas a maior nota boliviana em circulação é a de B$100 (equivalente à R$32 ou U$14) e é chato reclamar constantemente com motoristas de táxi, donos de barracas e garçons de restaurantes que estão sempre sem troco.

Me encontrei frequentemente na situação de ter que fingir estar sem dinheiro trocado só para poder trocar uma nota.

O preço dos produtos é outro complicador. Mais de uma vez tive a sensação de que o vendedor aumentou o preço na hora, motivado pelo fato de que sou obviamente estrangeira. Quando tentei indicar que o preço estava errado recebi um ‘e daí?’ ou riram na minha cara.

Claro, o lado positivo é que tudo na Bolívia é super barato. Mas mesmo que uma viagem de trem de dez horas custe R$35 ou uma suíte de hotel saia por R$20, às vezes você tem que colocar as coisas em perspectiva.

3. Comer na Bolívia é sempre uma experiência.

Os bolivianos gostam da sua comida. Em um país que é lar de milhares de variedades de batata, os locais complementam sua dieta pesada com uma obsessão nacional por coisas doces, como os copos plásticos de gelatina colorida com cobertura de creme que são vendidos em cada esquina. Empanadas açucaradas e a Coca-Cola também são onipresentes.

Outros costumes bolivianos que você verá: gente bebendo suco em sacos plásticos (na verdade uma ótima idéia!) e os mais velhos mascando punhados de folhas de coca para combater os males da altitude.

Comida boliviana: o lado positivo

A oferta de comida na Bolívia me deixou frequentemente feliz, em especial o menu del dia. Enquanto porções diárias de sopa, arroz, carne e plátano podem cansar logo, essa refeição simples é uma forma rápida e barata e matar a fome. Fugindo do almoço típico boliviano você vai encontrar boas ofertas de comida, é só ficar de olho e arriscar. Potosí faz um chocolate quente incrível, comemos fondue de queijo duas vezes em Copacabana e em Sucre experimentei o melhor bife da minha vida numa churrascaria que não estava listada nem no LonelyPlanet nem no TripAdvisor.

O mais importante é a atitude que os bolivianos tem em relação às refeições: algo comunitário, uma coisa bela de ver. Quando alguém passas por sua mesa no restaurante provavelmente vai dizer “buen provecho”. Também não acham nada estranho em repartir a mesa com desconhecidos, um hábito do qual muitas culturas poderiam se beneficiar.

4. A cultura boliviana é absolutamente fascinante.

Na minha cabeça não há dúvida: as particularidades da cultura boliviana são bom motivo para que o país atraia tanto a atenção. Homens e mulheres com roupas indígenas comuns em todas as vilas e em algumas grandes cidades. Meninos engraxam sapatos no meio da rua com rostos cobertos por balaclavas para não entregar a identidade. Fetos de lhamas dispostos sobre barracas nos mercados convidam as pessoas para que os enterrem sob suas casas para atrair boa sorte.

Esses aspectos da vida na Bolívia são coisas que estrangeiros simplesmente não entendem. E os bolivianos têm excentricidades comportamentais que podem estressar estrangeiros como eu.

5. ‘Dar um conselho’ na verdade significa inventar algo.

Num dia em Copacabana queríamos alugar uma motocicleta. Parecia uma boa forma de passar a tarde, passeando pela costa do lago e vendo lugares bonitos. Havíamos falado com um senhor que aluga motocicletas uns dias antes e ele nos deu um bom preço para quatro horas de aluguel de uma motocicleta automática. “Sim, claro, temos modelos automáticos”, ele disse. Tudo parecia resolvido.

Só que quando chegamos ele nos entregou uma motocicleta antiga, detonada, cheia de arranhões e começou a explicar que havia quatro marchas que precisávamos usar.

“Então não é automática”, arrisquei.

“Si, si, é! Não tem embreagem, é automática,” ele disse, sorrindo. Tentei de novo.

“Se tem marcha para mudar, não é automático. Pedimos por uma automática porque não sabemos dirigir com marcha.” O filho então tentou uma tática diferente.

“A estrada é reta. E plana. É uma estrada automática,” disse, evitando fazer contato visual comigo.

Várias e várias vezes essas coisas aconteceram conosco na Bolívia. Um estranho nos apontava na direção errada do endereço que tínhamos perguntado, um dono de loja negava ter um produto que eu podia ver na prateleira.

Mas, de novo, parte dessas loucura boliviana é o que faz desse país um lugar realmente especial.

Esse post foi publicado originalmente no blog Flora the Explorer e está republicado aqui com permissão da autora.

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