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Foto: Ricardo Liberato

Quando comecei a viajar não tinha a menor consciência sobre minha raça. Não de um jeito “não tenho raça alguma”, mas da mesma forma como pensava em sotaques. Aquele cara tem sotaque do sul. Aquela garota tem sotaque escocês. Aquele outro cara é carioca. Meu sotaque? Não, eu não tenho sotaque, eu falo normalmente. É o tipo de pensamento que não resiste ao raciocínio, mas sobrevive porque ninguém pensa nisso.

Esse tipo de atitude é padrão entre as pessoas de pele branca. Como eu. Não estou querendo dizer que somos maus ou ignorantes, apenas que vivemos em uma sociedade onde raramente se chama a atenção para nossa própria raça. Então até começar a viajar eu não era branco, eu era “normal”.

Viajando no mundo não-branco

Quando comecei a viajar para locais onde a população predominante não é européia e branca, ganhei apelidos. Na América do Sul eu era um ianque. No Havaí, haole. No Japão, gaijin.

Não é como se nunca tivesse recebido apelidos antes. Fora dos EUA já fui chamado de cabrón, poofter e shite. Esses são nomes que normalmente posso espantar, já que são relacionados a coisas que fiz, intencionalmente ou não. Fui chamado várias vezes de “americano” ou “Ohioan”. Mas os novos apelidos eram diferentes. não estavam relacionados a de onde eu vinha e mais com minha aparência. Pela primeira vez, um rótulo me deixava desconfortável. E não havia nada que eu pudesse fazer.

Ao viajar mais, descobri que esses rótulos eram o começo de qualquer conversa. Um cara na Argentina não acreditou quando eu disse que não votei no Bush. Um motorista de tuktuk na Índia ficou irritado por eu ser anti-muçulmano apenas porque eu disse que vinha dos EUA. Notei pela primeira vez que a idéia inicial que as pessoas têm de mim estavam cheias de conotações negativas.

“Que merda”, pensei. “Isso não é nada bom”.

Chineses vs domínio ocidental

Minha próxima lição seria na China, onde a maior parte da vida cultural e política é dominada pelo grupo étnico maior, a etnia han. Os han são cerca de 92% da população chinesa, mas há dezenas de grupos étnicos menores em toda China. Os que conheci melhor foram os tibetanos.

O mundo conhece a luta do Tibete pela independência. O que o mundo não conhece é o fato de que essa não é uma luta estritamente religiosa, mas étnica. Tibetanos são descriminados abertamente, mas também de formas veladas.

Viajando pelo Tibete, fiquei chocado com a percepção dos han com quem conversei de que estavam sendo generosos para com os tibetanos ao apresentá-los para uma nova economia e libertá-los do antiquado sistema dos Lamas. Como um grupo pode ser tão dominante sobre outro sem ter noção disso? Como ele pode usar o sistema tão claramente contra um grupo que deveria ser parte do mesmo país? Como pode marginalizar e criminalizar uma cultura sem notar o que está realmente fazendo?

Me senti muito íntegro e justo sobre isso por alguns dias. Até que voltei aos EUA. “Ah”, pensei. “Entendi”.

Viajar não é fatal para o preconceito e intolerância

Mark Twain escreveu certa vez que “viajar é fatal para o preconceito, intolerância e ideias limitadas”. Não é totalmente verdade. Conheço gente que viaja muito e volta para casa com preconceitos contra outras culturas e situações. Mas viajar torna mais difícil encarar preconceito, tanto o seu quanto os que as pessoas têm de você. É uma palavra muito usada em discussões atuais, mas no mundo da viagem, mais do que em qualquer outro, faz com que você esteja ciente do seu peso.

Viajar me fez perceber o quanto ser branco é uma questão de sorte e o quanto a cultura em que cresci foi construída em cima de benefícios para pessoas parecidas comigo em detrimento de todas as outras. Me fez notar que só posso enxergar do meu ponto de vista, mas apresentou para pessoas que enxergam de outras formas. E entender que meus privilégios me colocaram na estrada para me tornar uma pessoa branca um pouco melhor.

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