Foto: Diogo Figueira

Cresci nos EUA, orgulhosa da minha situação de nascida nos país. Meus pais são imigrantes brasileiros que se estabeleceram poucos anos antes de eu nascer. Sempre apreciei minha origem, mas conforme cresci fui ficando cada vez mais interessada na cultura norte-americana, deixando o Brasil de lado. Parei de falar português. Ficava no quarto quando meus pais viam futebol. Troquei a Xuxa pela Britney Spears. E só quando mudei para o Rio de Janeiro foi que entendi e abracei minha própria cultura. Isso é o que aprendi sobre ser brasileira.

Pra começar, sempre fui fã de um look natural. Nunca acordei uma hora mais cedo para passar maquiagem e alisar o cabelo, ou correr pra passar duas horas na academia e almoçar verdura. No Rio, me vi cercada por mulheres com cabelos enormes e sem maquiagem. Em Copacabana vi corpos perfeitos e esculturais, mas também barrigas salientes, celulite e imperfeições circulando de biquínis e calções. Brasileiros não têm tempo a perder. Estão sempre com enormes sorrisos, dando risada. São conhecidos por sua beleza física, mas normalmente é uma luz interior que os torna belos.

É essa luz interior que faz com que brasileiros sejam sempre a alma de qualquer festa – outro estereótipo verdadeiro. Festas são mais do que uma desculpa para encher a cara. Seja um feriado ou noite de terça-feira, festas são sobre celebrar. Cresci amando festas e lembro de meus pais fazendo caipirinhas e dançando É o Tchan na sala de casa. E em fevereiro, ficávamos acordados até tarde para ver a maior festa de todas: o Carnaval. Assistíamos todas as escolas, torcendo pela Mangueira e pela Beija-Flor. Mas nada nos preparou para viver o Carnaval na pele. Uma semana inteira de música, dança, fantasias e diversão para todas as pessoas, de todas as idades. Um resumo do meu tempo no Brasil.

A parte mais importante de qualquer festa são as pessoas. Brasileiros têm essa ligação forte com amigos e família. Sentam-se à mesa por horas, têm longas conversas no telefone, param para conversar na rua. Colocam tempo e esforço em todas as suas relações.

E também amam um drama, seja na vida ou na televisão. Novelas são uma forma de vida. Minha mãe acompanhava a Rede Globo nos EUA. Alguém na trama sempre estava tendo um caso com uma pessoa que estava tramando algo contra uma outra. Além do apreço por um bom escândalo, isso também é sobre emoções intensas. Brasileiros são explosivos, podem estar brigando num momento e rindo no próximo.

E essa paixão é melhor vista no futebol. Ainda que meus pais sejam loucos por seus times, eu mesma nunca dei muita atenção para esportes. Uma das razões é o estresse de cada jogo. Quando Vasco e Flamengo jogam meus pais não conseguem nem ver o jogo, de tão nervosos. Se importam demais. Quando o time ganha, tudo vale a pena. Quando perde, é de partir o coração.

A Copa do Mundo de 2014 foi um teste para tudo que aprendi. O espetáculo da celebração, as festas, o drama, a paixão, a conexão com as pessoas. Finalmente prestei atenção a um jogo de futebol, pela primeira vez na vida. Senti uma empatia imensa com o Neymar quando se machucou, e uma conexão com todos meus compatriotas depois daquele jogo fatídico.

Foi depois desse jogo que eu aprendi a lição mais importante de todas. Ganhar ou perder, o que importa é a honra de ser brasileiro. O Brasil tem seus problemas, é claro, mas é impossível não se apaixonar por esse país. É parte de um identidade que sempre me trará orgulho.

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