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O vento morno balança a rede e acaricia-me a pele, empurrando-me gentilmente as pálpebras. Pela fresta do que são os meus olhos vejo a colina a descer para a praia. O mar é o meu horizonte e as ondas são música. Dilani cozinha, dois esquilos copulam numa árvore, um cão dorme na sombra. Pouso o meu livro e deixo os olhos fecharem. Mais tarde escreverei: paz, paraíso.

Dilani sorri um sorriso cansado. Não nos cansamos de lhe dizer que está no céu, aqui, ela responde que queria uma coisa diferente. Uma cidade onde pudesse pôr as crianças na escola e estar perto do marido. Pergunta-nos se queremos trocar de vidas: ela vai para Portugal, nós ficamos no Sri Lanka.

Mas também diz que Hilltop Cabanas é como o seu terceiro filho e que continuará a desenvolvê-lo. “Agora plantamos estas flores”,  aponta com a cabeça para a pequena árvore à nossa frente. Construiu o lugar do nada, começando em 2011. Vir aqui parar nunca lhe tinha passado pela cabeça.

Dilani é de Arugam Bay, trinta minutos daqui, mas vivia  em Colombo com o marido e a filha quando decidiram comprar este terreno em Lighthouse Point, para vender mais tarde. Era um bom negócio e a vida ia bem. Então 2010 aconteceu. A empresa que empregava o marido começou com problemas financeiros e tiveram que mudar para Putallam, no noroeste, onde o custo de vida é mais barato. Decidiram usar as poupanças para começar a desenvolver o terreno. Limparam a terra e começaram a construir, sozinhos. Primeiro a casa principal, onde está a cozinha, o cômodo onde fazemos as refeições e preguiçamos nas redes e um quarto. É lá que dorme com o seu bebê e as duas raparigas que a ajudam. Depois, uma casa de banho exterior e três cabanas para hóspedes. Todas em madeira, com telhados de colmo e um pequeno cômodo com vista para o mar. Uma cama com rede mosquiteira, uma prateleira, e a sensação de que não precisas de mais nada na vida.

“Foi muito difícil. Não há electricidade nem estrada. Ao início não sabia como resolver o problema. Depois aprendi sobre painéis solares”. Estão dois destes painéis apoiados em estacas em frente ao alpendre. Carregam baterias que acumulam energia suficiente para ter luz elétrica nas cabanas do pôr-do-sol até a noite, e carregar as baterias dos celulares e gadgets dos hóspedes.

“Como mulher, é um grande desafio. Fiz quase tudo sozinha, com um bebê pequeno, porque o meu marido tinha de trabalhar durante a semana. Mas correu bem. Abri em 2011, vai bem”. 


2013 trouxe outra criança. O pequeno Arak vive aqui, e é mimado por todos nós. A filha, com quatro anos, vive com os avós em Arugam Bay, para puder ir à creche. Como não há electricidade, não há frigorífico. Mas existe uma arca. Dilani levanta-se todos os dias às 5.30 para ir na sua scooter à vila buscar gelo, frutas e vegetais. Conta-nos tudo isto sentada à mesa, enquanto comemos os noodles que fez para o almoço. À noite faz um jantar comunitário para os hóspedes que queiram. Ela decide o que vai ser servido. Por volta das sete sentamo-nos à volta da mesa, passando tachos e panelas entre nós. Discutindo as ondas do dia e quão sortudos somos por estar ali, longe das multidões de Arugam Bay, com a praia só para nós.

Na baixa temporada, Dilani fecha tudo e junta-se ao marido, em Monaragala. Quando há clientes, ele vem aos fins-de-semana para ajudar. “É um bom homem”.

E pensar que quase não viemos! Para chegar, tem de se percorrer um caminho de areia, sem sinais ou luz. Tinhamos ouvido falar de elefantes na estrada e sido avisados para evitar conduzir as scooters depois do anoitecer. O sol já se punha quando pegamos a estrada, mas acabamos chegando. Íamos ficar dois dias, já passaram quatro. O tempo passa sem notar, tranquilamente. Acordar ao nascer do sol, praia, surf, sol, redes, sombra, almoço, mais redes, mais sombra, mais sol, mais surf. Às vezes fico horas lendo Running In the Family, do Ondaatje, apreciando a beleza de cada palavra sobre este país sobre o qual não me decido, mas que começa a entranhar em mim.

Hoje é o nosso último dia. Aproveitamos a tarde para explorar as redondezas, já sem medo de regressar depois do pôr-do-sol. Vemos quilômetros de campos vazios, seguidos do verde das palmeiras. A selva a fechar-se ao longe. Terras cultivadas e arrozais pontilhados de búfalos de água cinzentos. Depois do caminho de areia, uma estrada semi-pavimentada com algumas casas, espaçadas. Pavões correm ao longo da estrada, vacas atravessam a estrada, cabritos perseguem os pais. Crianças com sorrisos intermináveis acenam quando passamos e alargam o sorriso ao impossível quando acenamos de volta.

Em alguns locais existem lagoas à beira da estrada. Espelhos prateados, reflectindo o céu lilás e a enorme bola laranja em que o sol se transformou. As árvores e pássaros são silhuetas pretas à distância. Os mosquitos começaram o seu ataque diário, mas não nos movemos. Queremos absorver toda esta beleza. Gravá-la. Amanhã partimos para as montanhas.

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