[todas as fotos da autora, Delia Harrington]

Em março desse ano estive no Kerala, estado verde no sul da Índia, uma viagem patrocinada pelo Kerala Tourism Bureau. É importante dizer isso, porque os patrocinadores não impuseram nenhum tipo de regra sobre o que falar. O que você lê abaixo, portanto, é apenas a minha opinião e percepção.

Elefantes “domesticados” são encontrados em todo o lugar no Kerala. A maior parte dos meus encontros com esses animais de deu por acaso. Menos as duas vezes em que vimos elefantes na chegada em hotéis.

Coloco aspas no termo domesticado porque não estou convencida de que um animal como esse possa ser domesticado. E, mesmo se puder, acho difícil acreditar que isso possa acontecer no período de uma vida – afinal, não é verdade que a domesticação é um processo multi-geracional, uma forma de evolução contida?

Segundo o grupo de apoio à conservação da vida selvagem EleAid, a Índia tem as mais rígidas leis sobre domesticação de elefantes em toda a Ásia, mas essas leis não são sempre compridas. A vida na cidade é totalmente inadequada em relação às necessidades de elefantes e outros animais selvagens, que muitas vezes são usados em turismo e templos, acorrentados no mesmo local durante toda a vida ou super-explorados como força de trabalho.

Não é tão fotogênico, certo?

Como alguém que ama animais (e que sempre se interessou por ciência), durante a viagem à Índia fiquei em conflito por querer estar perto dos animais mas também querer vê-los em liberdade.

Por mais interessante que seja ver um urso no quintal do vizinho no Maine, por exemplo, é muito triste perceber que esse animal só está lá porque adquiriu gosto pela comida dos humanos e foi corajoso o suficiente para entrar na casa de alguém atrás dela. Isso significa que esse urso muito provavelmente vai acabar morrendo por causa de algo que comeu.

No sétimo dia da minha viagem pelo Kerala, fiz um passeio de barco na Periyar Tiger Reserve (“sem garantia de Tigres!”). É uma área que só pode ser acessada de barco e foi o primeiro lugar que ví na Índia sem nenhum lixo. Os animais estão substancialmente protegidos numa reserva grande o suficiente e suas vidas parecem seguir tranquilas, sem nenhum contato com seres humanos além daqueles que passam nos barcos pelos rios, sempre numa distância segura. Para mim, essa é a forma como a natureza deve ser observada: de uma distância segura, respeitosamente, e em número (controlad0) de humanos.

Os elefantes selvagens na reserva Periyar: é bem melhor assim!

Nós vimos elefantes selvagens de novo em Wayanad, da janela do ônibus que atravessava o Wayanad Wildlife Sanctuary. Não pudemos visitar muito desse santuário como planejado por causa do tempo excessivamente seco e de focos de incêndio, que estavam deixando os animais intranquilos. Mas fiquei feliz ao ouvir que não íamos fazer algo que poderia ameaçar tanto a nós quanto aos animais. Para mim, o mais claro sinal de um bom santuário ou reserva é o uso da palavra “não”. Não existe valor financeiro que esteja acima do bem-estar e segurança dos animais.

Por mais que eu ame a mágica e a intensidade (e não vamos esquecer das fotos em redes sociais e posts em blogs!) de ver um animal selvagem de perto, não dá pra deixar de lado o fato de que isso não é natural. Eles não estão no planeta para se curvarem à nossa vontade, para comerem nossa comida ou para nos carregarem. Eles precisam de espaço, não correntes, e uma organização de pesquisa e preservação séria precisa muito mais do nosso dinheiro do que lugares que oferecem experiências turísticas com animais drogados e cansados.

Protegido ao lado da família no santuário de Wayanad.

Além da ética envolvida, animais são muito mais interessantes quando estão se comportando da forma como devem se comportar. Um colega de viagem, o reporter brasileiro Daniel Nunes (do blog SameSame), disse no Instagram que ver um mãe elefante com seu filhote na natureza é muito melhor do que ver um animal acorrentado numa rua asfaltada. Foi maravilhoso ver pela janela do ônibus aquele pequeno grupo de elefantes quietamente cuidando de suas próprias vidas na floresta em Wayanad, sem serem incomodados pela nossa presença, sem nenhuma decoração além de sua própria pele e lama, totalmente livre de correntes.

Espero que tanto governos quanto turistas possam fazer com que a escolha de manter os animais livres em seus habitats seja uma boa escolha, uma que é recompensada com boa publicidade e negócios rentáveis. Espero que consumidores possam ter mais consciência do poder de seus dólares, presença e fotos, e que ajam de acordo. Espero que elefantes e outros animais ainda estejam livres no mundo para serem apreciados pelas próximas gerações.

Quer saber mais sobre como ajudar animais e tomar decisões mais humanas?
Tente essas fontes (links em inglês):

Três santuários de elefantes tailandeses com boa reputação, na MatadorNetwork;
Estudantes de Hong Kong trabalhando para combater o tráfico de marfim;
A Clinton Global Iniciative para salvar a os elefantes africanos;
Como turistas podem ajudar, segundo o Humane Advisor;
O turismo CERTO;
O guia para o turismo amigo dos animais, da lista da Sociedade Mundial de Proteção aos Animais;
Project Elephant, iniciado pelo governo da Índia em 1992.

Artigo republicado com autorização, leia o original em inglês.

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